O cenário político e administrativo do Rio Grande do Sul ganhou novos contornos em uma entrevista de forte impacto veiculada pelo Em Evidência na TV. Conduzido pelo jornalista Cláudio Andrade, o programa recebeu Nelcir André Varnier, presidente do Sindicato dos Servidores de Nível Superior do Poder Executivo do Rio Grande do Sul (Sintergs), para um balanço crítico sobre a realidade do funcionalismo gaúcho. Com a autoridade de quem lidera uma entidade que representa mais de 45 profissões de nível superior, Varnier expôs a grave corrosão salarial que afeta a categoria e apresentou denúncias contundentes envolvendo o desconto previdenciário de inativos e a falta de transparência nos cálculos do IPE Prev, contextualizando o histórico ato unificado que mobilizou dezenas de entidades em frente ao Palácio Piratini. A Revista Em Evidência compilou os momentos mais marcantes e polêmicos dessa conversa. Em primeira mão, divulgamos uma importante articulação política na Assembleia Legislativa: o bastidor de uma nova Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa instituir uma data-base definitiva para a revisão geral anual. Uma leitura indispensável para compreender os rumos do serviço público e as próximas frentes de batalha entre os servidores e o Estado. Confira a seguir
No último dia 5 de maio, o Sintergs e outras entidades realizaram um grande evento, correto?
Exatamente. Nós organizamos um ato público em conjunto com mais de 30 entidades em frente ao Palácio Piratini. Foi um movimento com uma repercussão muito positiva e que atingiu todos os nossos objetivos. Embora ainda não tenhamos recebido uma resposta oficial do governo, conseguimos passar o nosso recado de forma clara e expressiva.
O senhor está à frente do Sintergs em um período de profundas transformações no serviço público gaúcho. Qual é o maior desafio enfrentado pelos servidores estaduais hoje?
O maior desafio histórico, desde 1988, é a ausência de uma data-base e de um índice que regulamente a revisão geral anual, o que gera abismos salariais e permite a criação de verdadeiras castas funcionalistas no Estado. Sem essa regra, enfrentamos uma corrosão inflacionária absurda: acumulamos mais de 90% de inflação pelo IPCA desde 2014, e o atual governo, que já está no poder há oito anos, concedeu apenas 6% de revisão geral, reduzindo o poder de compra do servidor pela metade. Suspeitamos, inclusive, que essa falta de regulamentação seja uma estratégia proposital dos governantes para sufocar os sindicatos, obrigando as entidades a focarem eternamente na reposição da inflação em vez de avançarem em pautas como ambiente de trabalho, promoções, diárias e auxílio-refeição. Essa asfixia financeira motivou o nosso ato do dia 5 de maio em frente ao Palácio Piratini, organizado para contestar o confisco previdenciário imposto aos aposentados, pensionistas e militares da reserva desde 2019. O governo alega um déficit no IPE Prev para justificar esse desconto, algo que não existe na iniciativa privada após a aposentadoria, mas nunca apresentou publicamente os cálculos desses fundos. Na prática, o governador concedeu 6% de reajuste de um lado e retirou entre 10% e 12% de um grupo de cerca de 180 mil inativos do outro. Diante das limitações do período eleitoral, exigimos agora a revogação desse desconto, o regulamento das promoções que está atrasado há dois anos e a reposição das perdas dentro do teto oficial da inflação.
O que os servidores buscam é aumento real ou apenas a reposição das perdas para a inflação?
Buscamos estritamente a reposição da inflação, pois hoje o servidor gaúcho não tem nem ganho real e nem reposição. Para romper essa inércia do Executivo, trago um furo de reportagem: o Sintergs articulou uma nova PEC da Data-Base na Assembleia Legislativa. O deputado Dr. Thiago, do PDT, abraçou o desafio e já protocolou a minuta do projeto no sistema da Casa. Essa proposta retoma as tentativas feitas em 2017 e 2019 pela ex-deputada Juliana Brizola, que acabaram arquivadas na Comissão de Constituição e Justiça. Agora, nossa mobilização nos gabinetes busca colher as 19 assinaturas necessárias entre os parlamentares para que a PEC comece a tramitar oficialmente, e a expectativa é protocolar o documento final na presidência da Assembleia ainda neste mês de maio.
Qual é a posição do Sintergs a respeito do uso recorrente de contratações emergenciais por parte do governo do Estado?
O Sintergs não tem absolutamente nada contra os trabalhadores contratados, mas essa modalidade deveria ser uma exceção para catástrofes e não uma regra de gestão para um governo que está há oito anos no poder e teve tempo de planejar concursos públicos. O concurso é o único meio objetivo que garante igualdade de acesso a todos, enquanto a seleção por análise de currículo abre margem para a subjetividade e favorece o apadrinhamento, além de desestimular o mercado dos cursinhos preparatórios e os próprios concurseiros que investem no seu futuro. Há uma maldade enorme nessa política do governo, que utiliza a contratação emergencial para fazer terrorismo psicológico e criar um verdadeiro exército de militantes amedrontados no período eleitoral. Como esses servidores não possuem estabilidade e dependem do emprego para sustentar suas famílias, o Centro Administrativo acaba virando um balcão de boatos de demissão, forçando cerca de duas mil famílias a votarem nos candidatos da situação por puro medo de perderem o pão de cada dia.
Como a sua profissão ajuda na condução do Sindicato e na defesa da valorização do servidor perante a sociedade?
Minha formação em Administração é fundamental para gerir o Sintergs, que hoje representa mais de 45 profissões de nível superior, como engenheiros, médicos, advogados, biólogos e economistas, todos com papel estratégico para o Estado. Defendo uma filosofia de gestão onde os trabalhadores são sujeitos do processo, e não meros objetos ou “móveis e utensílios”, uma visão inclusive muito alinhada ao que defendia o ex-governador Olívio Dutra. Quando você desafia, ouve e valoriza o profissional, ele se motiva e entrega o seu melhor, algo que infelizmente o Estado ignora ao inflar a máquina com cargos de confiança (CCs) que muitas vezes não têm a menor competência técnica ou vocação para as funções que assumem. Minha recomendação para esses gestores políticos é que deixem a vaidade de lado e consultem o corpo técnico de servidores do Estado, que atua como verdadeiros consultores e assessores preparados para fazer o serviço público funcionar com excelência.
O senhor também presidiu a CGTB no Rio Grande do Sul. O que essa experiência trouxe de aprendizado para a sua trajetória?
Assumir a CGTB em 2017 foi uma experiência válida e um grande aprendizado, pois ingressei na gestão ainda muito jovem e sem o pleno conhecimento dessas macroestruturas sindicais, que na época já enfrentavam um momento de declínio e rachas internos. Essa vivência me deu a clareza de que hoje as entidades do funcionalismo operam em um verdadeiro vácuo de representatividade institucional e política. Para o ato do dia 5 de maio, por exemplo, criamos um movimento unificado do zero, o Movape, reunindo mais de 32 associações e sindicatos, incluindo os militares da reserva que não podem ter sindicato próprio. Embora o Sintergs participe ativamente de frentes importantes como a União Gaúcha, o Mosap em Brasília e a Auditoria Cidadã da Dívida, o funcionalismo carece de uma organização centralizada que unifique o discurso nas grandes pautas, como o IPE Saúde e a revisão geral, deixando cada sindicato livre para focar em suas lutas específicas de base, como a melhoria de equipamentos e condições de trabalho. Atualmente, o Sintergs não é filiado a nenhuma central sindical, mas vejo com bons olhos modelos como o da CSB (Central dos Sindicatos Brasileiros), que atuam como suporte institucional respeitando a plena autonomia de cada categoria. Estar inserido em uma central ativa e estratégica é fundamental para o funcionalismo ter voz e vez nos espaços de poder em Brasília, onde tramitam projetos cruciais como a reforma administrativa. Além do peso político de ter um representante dialogando diretamente com a Presidência da República, ministros do STF ou presidentes da Câmara e do Senado, há uma óbvia otimização de recursos: em vez de um sindicato gastar milhares de reais com passagens aéreas, diárias e hotéis para enviar diretores à Capital Federal, a estrutura da central faz essa articulação de forma contínua e com custo muito menor. Essa parceria vale muito a pena, desde que a central seja efetivamente voltada para a defesa do trabalhador e não se perca em disputas de vaidade que desviam o foco de sua própria existência.






