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Dito por muitos como um dos “pensadores” que articularam a aproximação histórica de um governo de Estado com os prefeitos, Gabriel Souza, consolida sua imagem de agente político extremamente técnico. Sua concepção científica de gestão foi um dos pilares que edificaram a base de prioridades do governo Eduardo Leite sobre a causa municipalista.

A Revista Em Evidência entrevistou, com exclusividade, o vice-governador do RS.

O senhor assumiu um papel de destaque na reconstrução do Estado após as enchentes históricas. Quais são hoje as principais prioridades do governo para garantir que o Rio Grande do Sul esteja mais preparado para futuros eventos climáticos?

A prioridade hoje é transformar a reconstrução em adaptação climática permanente. Por isso criamos o Plano Rio Grande, uma política de Estado voltada não apenas à reconstrução, mas à preparação para os desafios das próximas décadas. Estamos investindo em proteção contra cheias, monitoramento, infraestrutura resiliente, habitação e fortalecimento da capacidade de resposta dos municípios.

O desafio não é apenas recuperar o que foi perdido. É garantir que o Estado esteja mais preparado para proteger vidas, preservar atividades econômicas e responder com mais rapidez aos eventos climáticos extremos que, infelizmente, tendem a ser mais frequentes.

Como o senhor avalia os avanços alcançados pelo governo estadual na recuperação das cidades atingidas pelas enchentes de 2024?

Conseguimos restabelecer serviços essenciais, recuperar estradas, pontes, escolas e hospitais, apoiar municípios e criar programas voltados à reconstrução de moradias e da atividade econômica. Mas talvez o principal resultado tenha sido a capacidade de articulação construída entre Estado, municípios, setor produtivo e sociedade civil.

Essa união permitiu acelerar respostas e transformar recursos em ações concretas. O Rio Grande do Sul já passou da fase de reação à tragédia e avançou muito na reconstrução, sempre se preparando para o futuro.

O que ainda precisa ser feito paraque famílias e empresários afetados retomem plenamente suas atividades?

A infraestrutura avança mais rápido do que a recuperação econômica e emocional das pessoas. Ainda existem famílias reconstruindo suas casas, produtores recuperando suas propriedades e empresas retomando suas atividades. Precisamos continuar investindo em habitação, crédito, apoio aos empreendedores e geração de emprego.

A reconstrução não termina quando a ponte fica pronta. Ela termina quando as pessoas conseguem retomar plenamente seus projetos de vida.

O senhor tem percorrido diversas regiões do Estado. Quais são as principais demandas que recebe dos prefeitos gaúchos atualmente?

Os prefeitos são os primeiros a sentir as necessidades da população. Hoje as demandas mais recorrentes envolvem saúde, infraestrutura, habitação, prevenção climática e desenvolvimento econômico.

O que mudou nos últimos anos é que os municípios passaram a enxergar o Estado como parceiro. Os convênios cresceram 14 vezes em comparação à década anterior porque recuperamos a capacidade financeira do Estado e ampliamos os investimentos. Os prefeitos querem soluções, não disputas políticas. E é exatamente isso que temos procurado entregar.

Como o governo está trabalhando para fortalecer a relação institucional com os municípios gaúchos?

Temos uma convicção muito clara: ninguém governa sozinho. Por isso ampliamos convênios, descentralizando investimentos e mantendo diálogo permanente com os prefeitos.

Quando fortalecemos essa relação, os recursos chegam mais rápido onde as necessidades estão e construímos soluções mais adequadas para cada região do Estado.

A infraestrutura tem sido uma das pautas centrais da gestão. Quais são os investimentos mais importantes previstos para os próximos anos?

Se existe uma agenda capaz de transformar o futuro do Rio Grande do Sul, ela passa pela infraestrutura. Precisamos continuar investindo em rodovias, aeroportos, logística e mobilidade, mas também acelerar uma agenda de concessões e parcerias que permita ampliar a capacidade de investimento do Estado.

Ao mesmo tempo, a reconstrução pós-enchentes abriu uma oportunidade para modernizar a infraestrutura gaúcha. Estamos executando obras financiadas pelo Funrigs com um olhar voltado para a resiliência climática, preparando estradas, pontes e sistemas logísticos para uma nova realidade. Essa é uma agenda que não termina em um governo. É uma agenda para o presente e o futuro.

O Rio Grande do Sul vive um momento de transformação econômica. Quais setores o senhor considera estratégicos para impulsionar o crescimento do Estado?

O mundo inteiro está passando por profundas transformações econômicas, tecnológicas e demográficas. Olhando para esse cenário, construímos o Plano de Desenvolvimento Econômico, Inclusivo e Sustentável, que reúne setores estratégicos para impulsionar o crescimento gaúcho nas próximas décadas.

Entre eles, destaco a cadeia agropecuária, que tem enorme potencial para agregar valor à produção; a transição energética, especialmente em áreas como biocombustíveis; a indústria; e os produtos e serviços digitais, sobretudo a inteligência artificial aplicada a áreas em que já somos referência, como agro, saúde e indústria.

Como o senhor avalia os resultados das políticas de atração de investimentos implementadas pelo governo estadual?

O Estado voltou a ser visto como um ambiente confiável para investir, empreender e gerar empregos. Quando observamos os investimentos privados anunciados, vemos uma mudança muito significativa: saímos de um patamar próximo de R$ 30 bilhões por ano para uma média superior a R$ 80 bilhões nos últimos anos, ultrapassando R$ 100 bilhões em 2025.

Projetos como os R$ 27 bilhões da CMPC, a implantação da primeira cidade de data centers da América Latina pela Scala Data Centers e diversos investimentos em logística, energia, indústria e tecnologia mostram que o RS voltou a competir pelos grandes empreendimentos nacionais e internacionais.

O turismo gaúcho tem mostrado potencial de crescimento. Quais ações estão sendo desenvolvidas para fortalecer o setor?

O turismo tem grande capacidade de gerar emprego, renda e desenvolvimento regional. Mesmo depois da pandemia e dos eventos climáticos extremos, o Rio Grande do Sul recuperou sua atividade turística e voltou a crescer acima da média nacional. Em 2025, o setor cresceu 11,4% e o Estado recebeu 1,5 milhão de turistas internacionais.

Esse resultado é fruto de uma estratégia que coloca o turismo como política de desenvolvimento e combina promoção, infraestrutura e parceria com o setor produtivo. Com campanhas como o Viva o Inverno Gaúcho e o Viva o Verão Gaúcho, fortalecemos a presença do Estado nos mercados nacional e internacional e investimos na regionalização do turismo, valorizando aquilo que cada região tem de único.

A educação é um dos pilares para o desenvolvimento. Quais avanços o senhor destaca na área educacional durante a atual gestão?

Nos últimos anos, avançamos em três frentes fundamentais: infraestrutura, qualidade da aprendizagem e permanência dos estudantes na escola. Investimos mais de R$ 1 bilhão em obras escolares, com melhorias em mais de 800 escolas em todas as regiões. Saímos de apenas 18 escolas com Ensino Médio em Tempo Integral em 2019 para 432 escolas em 2026, ampliando o atendimento de 5 mil para 50 mil estudantes.

Essa transformação tem uma importância que vai além da educação. Quando ampliamos o tempo integral, fortalecemos a educação profissional e reduzimos a evasão escolar, investimos na competitividade do Estado e na formação da próxima geração de trabalhadores e empreendedores.

O governo tem investido em inovação e tecnologia. Como essas iniciativas podem impactar diretamente a vida dos gaúchos?

A inovação é central para enfrentar as transformações pelas quais o mundo está passando. Por isso, alinhamos a força do nosso ecossistema, que reúne algumas das principais universidades, incubadoras e parques tecnológicos do país, com investimentos históricos. Esse esforço nos tornou líderes nacionais em inovação de acordo com o Centro de Liderança Pública.

Com o South Summit Brazil, colocamos o RS no mapa global, atraindo investidores, multinacionais e startups de todo o mundo. O impacto também chega pela formação das pessoas, por meio de programas como o Professor do Amanhã e o RS Talentos. Queremos garantir que qualquer jovem ou empreendedor gaúcho possa construir uma carreira em tecnologia sem precisar ir embora.

A segurança pública apresentou indicadores positivos nos últimos anos. Quais são os próximos desafios nessa área?

Alcançamos resultados históricos na segurança pública. Tivemos três anos consecutivos com os menores índices criminais da série histórica, reduzimos em mais de 60% os crimes violentos letais e registramos quedas expressivas em indicadores como roubos de veículos e roubos a comércio. Resultados concretos de uma política baseada na integração das forças de segurança, inteligência, tecnologia, gestão por resultados e investimentos. O grande desafio agora é preservar e aprofundar esses avanços.

Também precisamos avançar no enfrentamento à violência contra as mulheres. Tivemos avanços importantes na proteção das vítimas e no monitoramento de agressores, mas precisamos fortalecer a rede de proteção, ampliar as ações preventivas e promover uma mudança cultural capaz de enfrentar a violência desde sua origem.

O senhor é apontado como uma das principais lideranças da nova geração da política gaúcha. Como enxerga essa responsabilidade?

Ao longo da minha trajetória, tive a oportunidade de assumir grandes responsabilidades e conhecer diferentes realidades. Comecei no movimento estudantil, fui secretário municipal, deputado estadual, líder de governo, presidente da Assembleia Legislativa e hoje exerço a função de vice-governador. Cada uma dessas etapas me ajudou a compreender melhor os desafios e as potencialidades do nosso Estado.

Entendo que o desafio da nossa geração é unir novas ideias com a responsabilidade de quem conhece o Estado e está preparado para tomar decisões difíceis quando elas são necessárias. O Rio Grande do Sul precisa olhar para o futuro sem abrir mão da experiência, do diálogo e da capacidade de construir soluções.

Quais aprendizados a experiência como vice-governador trouxe para sua trajetória política?

Uma das experiências mais importantes que tive como vice-governador foi a responsabilidade de atuar nos gabinetes de crise durante as enchentes. Nessas horas, aprendemos que governar exige serenidade, capacidade de decisão, coordenação e diálogo permanente.

Como presidente do Conselho do Plano Rio Grande, acompanho a construção de uma política de Estado voltada à reconstrução e à adaptação climática, preparando o Estado para as próximas décadas. Também liderei programas estratégicos para o desenvolvimento do Estado, como o Todo Jovem na Escola e o Professor do Amanhã, além de iniciativas ligadas à causa animal, primeira infância, infraestrutura e mobilidade urbana.

O MDB tem um papel histórico no Rio Grande do Sul. Como o senhor vê o futuro do partido no cenário estadual e nacional?

O MDB tem uma trajetória profundamente ligada à democracia brasileira e ao desenvolvimento do Rio Grande do Sul. Sempre teve a capacidade de dialogar, construir consensos e colocar os interesses da população acima das disputas ideológicas. Em um momento em que o debate público é dominado pelos extremos, essa característica é ainda mais importante.

Vejo o MDB ocupando justamente esse espaço de construção, diálogo e compromisso com resultados.

O que diferencia a atual gestão das anteriores na condução dos grandes projetos para o Estado?

Durante muito tempo, boa parte da energia do governo era consumida pela crise das contas públicas. Quando falta capacidade financeira, faltam também condições para investir, planejar e executar grandes projetos.

Nos últimos anos, organizamos as finanças, realizamos reformas importantes, recuperamos a credibilidade do Estado e retomamos a capacidade de investimento. Isso permitiu que o governo deixasse de administrar crises permanentes para voltar a planejar o futuro.

A principal diferença está justamente aí. Mais do que anunciar obras ou programas, passamos a ter condições de entregar resultados. O equilíbrio fiscal não é um objetivo em si mesmo. Ele é a ferramenta que permite investir mais, planejar melhor e construir soluções concretas que melhoram a vida das pessoas.

Como o senhor avalia a importância do diálogo entre governo, setor produtivo e entidades representativas para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul?

As melhores soluções surgem quando conseguimos reunir quem produz, quem trabalha, quem investe, quem pesquisa e quem está na ponta prestando serviços à população. Essa lógica orientou muitas das decisões tomadas nos últimos anos.

Foi assim na recuperação fiscal, na atração de investimentos, na construção do Plano Rio Grande e na relação com os municípios. O Estado ampliou significativamente os convênios e as parcerias com as prefeituras porque entendemos que quem está mais próximo da população conhece melhor suas necessidades. O mesmo vale para o relacionamento com o setor produtivo, universidades e entidades representativas. O papel do governo é criar um ambiente de confiança e construir soluções em conjunto.

Quais são as metas que o senhor considera fundamentais para que o Estado alcance nos próximos anos?

Avançamos muito nos últimos anos, mas ainda temos desafios importantes pela frente. O primeiro deles é consolidar a sustentabilidade fiscal do Estado. Foi o equilíbrio das contas que permitiu recuperar a capacidade de investimento. Também precisamos melhorar os indicadores de aprendizagem. A pandemia e as enchentes deixaram impactos importantes na educação, e recuperar essas perdas é uma das tarefas mais estratégicas para o futuro. Da mesma forma, precisamos seguir avançando na adaptação climática e ampliar a infraestrutura hídrica, especialmente a irrigação.

Se eu tivesse que resumir os desafios da próxima década em uma frase, diria que precisamos garantir que o Rio Grande do Sul continue sendo um Estado capaz de atrair investimentos, reter talentos e oferecer oportunidades para que as pessoas tenham qualidade de vida e possam construir aqui seus projetos de vida.

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