Há quanto tempo a senhora está à frente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio Grande do Sul (CREA-RS)?
Meu primeiro mandato ocorreu de 2021 a 2023, período em que enfrentamos um ano e meio de pandemia. Como são permitidos no máximo dois mandatos de três anos cada, a reeleição começou em 2024 — ano já marcado pelas inundações —, e esta última gestão se encerrará em 31 de dezembro de 2026.
A modernização dos serviços do conselho, que conta hoje com quase 90 mil profissionais e quase 30 mil empresas, foi uma prioridade na sua gestão. Quais foram os principais avanços concretos que impactaram o dia a dia desses engenheiros, agrônomos e geocientistas?
Esse processo de modernização começou logo em 2021, o que representou um grande desafio devido à própria pandemia. Assumi o compromisso de mudar um aspecto bastante problemático do nosso sistema: a Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), o documento que formaliza a contratação entre o contratante e o contratado. O acesso ocorria pelo site do conselho e era um processo frustrante. Após o pagamento da taxa, o profissional precisava esperar em média 48 horas ou mais pela liberação. Essa demora impedia o início imediato do trabalho, fosse para encaminhar um projeto na prefeitura, no Corpo de Bombeiros ou para atuar em um evento temporário na serra ou no litoral. Na prática, o conselho acabava nos penalizando.
Mesmo com poucos funcionários atuando presencialmente durante a pandemia, conseguimos reduzir o tempo de emissão para cerca de 15 minutos ainda em 2021. Como isso não era o suficiente, fomos um dos primeiros CREAs a implementar a liberação imediata da ART via Pix. Na sequência, criamos um portal técnico dedicado exclusivamente ao trabalho, reservando o site principal para notícias e cursos. Fomos também o primeiro conselho de regulamentação e fiscalização do país a estabelecer uma interface direta com o Gov.br. Hoje, o profissional acessa o sistema pelo celular ou tablet e assina o documento digitalmente na hora.
Outro avanço foi a implementação da carteira digital profissional, equipada com foto e chip, válida como documento de identificação para embarque em voos e até para a emissão de passaportes. Além disso, desburocratizamos totalmente a Certidão de Acervo Técnico com registro, que é exigida para a participação em licitações de obras públicas. Como somos o quarto maior conselho do país, não podemos ficar para trás em inovação. Contudo, pela minha exigência, reconheço que ainda temos muito a avançar.
Como se deu o trabalho de aproximação institucional do conselho com outras entidades, prefeituras e órgãos decisórios ao longo desses mandatos?
Observei atentamente a trajetória dos presidentes anteriores para aprender o que replicar e o que evitar sob qualquer hipótese. Sempre defendi que o conselho deveria estar presente em todas as frentes, pois a engenharia permeia tudo. Como é impossível estar fisicamente nos 497 municípios ao mesmo tempo, o foco se voltou para as nossas alianças.
Promovemos uma aproximação inédita com a Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), participando pela primeira vez da assembleia dos prefeitos no verão de 2023, ação que repetimos em 2024, 2025 e agora em 2026. Essa iniciativa nos permitiu dialogar de forma rápida e objetiva, afinal, é no município que a vida acontece. A presidente Adriane, que transmitiu o cargo ao presidente Ique Vedovato, de Imbé, foi a sexta liderança da federação com quem atuei desde que assumi, para manter essa aliança fundamental, já me reuni com o presidente Ique e, juntos traçamos algumas diretrizes para 2026.
Também estreitamos laços com diversas secretarias estaduais e com a Assembleia Legislativa, instâncias decisórias que impactam diretamente os profissionais. Portanto, mesmo não estando no “chão de fábrica” em tempo integral, busco exercer um papel institucional forte. O objetivo é fazer a diferença conectando o conselho aos responsáveis pelos projetos e pelas legislações nos níveis municipal, estadual e federal. Se a nossa categoria não ocupar esses espaços, outros o farão.
Considerando a atuação no interior do estado, como o conselho estruturou a modernização e a recuperação física das inspetorias espalhadas pelos municípios?
As inspetorias representam a descentralização da nossa sede e funcionam como a casa do profissional, acolhendo empresas, servidores administrativos e agentes fiscais. Contamos com 44 unidades espalhadas por cidades como Uruguaiana, Frederico Westphalen, Torres, Camaquã, Pelotas, Esteio, Vacaria e Bagé, cobrindo todo o litoral. Mantemos polos avançados em Santana do Livramento, Alegrete, São Gabriel, entre outros.
Contudo, enfrentávamos um passivo de manutenção significativo, com imóveis que não passavam por reformas há 30 ou 40 anos, em média. Era insustentável tentar dialogar com um presidente de Câmara de Vereadores, receber um investidor ou servir de modelo de empreendedorismo com as instalações caindo aos pedaços. Diante da necessidade urgente de melhorias em todas as unidades, adotamos como critério a idade de fundação de cada inspetoria naquele ano — as que completavam 40, 45 ou 50 anos ganharam prioridade.
Com essa metodologia, concluímos dez reformas em apenas dois meses. Atualmente, temos obras em andamento em São Leopoldo, Novo Hamburgo e Bento Gonçalves, com inícios previstos para Torres, Esteio e Caxias do Sul. Para o segundo semestre, o cronograma inclui Santiago, São Luiz Gonzaga e Três Passos. Das 44 inspetorias, 33 possuem sede própria, e nossa meta é reformar mais de 90% delas. Penso que, além de dar o exemplo, é fundamental valorizarmos as nossas estruturas e os nossos profissionais.
O conselho completará 92 anos no dia 30 de maio, véspera do aniversário do meu filho. O mês também marca enchentes históricas: a de 2024 e a de 1941, cujo pico ocorreu no dia do nascimento do meu pai, 6 de maio. Avaliando as estruturas de cidades como Esteio, São Leopoldo, Canoas e Novo Hamburgo, nossas contenções estão preparadas para suportar novos eventos climáticos extremos?
Acompanhei as análises de diversos meteorologistas, geógrafos e engenheiros geólogos, profissionais que integram a área de geociências do conselho. Tomando como referência a enchente de 1941, ocorrida no nascimento do seu pai, e a de 2024, temos um intervalo matemático de 83 anos. Ao longo desse período, o estado cresceu, ocupou o território e se desenvolveu economicamente. O resultado dessa expansão é uma conta que não fecha.
Historicamente, as pessoas acabaram se instalando nas margens de rios e mananciais. Quando se questiona essa localização, a resposta costuma ser geracional: “meu avô já viveu ali, minha tia foi criada aqui, meu pai se criou”. De fato, mas isso ocorreu em uma época em que o entorno não possuía a mesma configuração urbana de hoje. Faltou um olhar sob uma perspectiva mais macro. Eu moro na parte baixa da planície do Rio dos Sinos, em Esteio, e preciso necessariamente me preocupar tanto com quem está lá em Parobé quanto com as comunidades a jusante. Preocupar-se apenas com a própria localidade não funciona. Por isso, os comitês de bacia hidrográfica são fundamentais.
Qual foi a atuação técnica e institucional do conselho na resposta à calamidade, especialmente no levantamento de danos e na liberação de infraestruturas essenciais?
O conselho não mediu esforços. Por questões de segurança, coloquei todos os servidores em regime de trabalho remoto, pois a nossa sede, na Avenida Ipiranga, corria risco iminente de alagamento devido ao transbordamento do Arroio Dilúvio. Com as atividades presenciais suspensas, a frota de carros oficiais foi destinada a auxiliar diretamente os municípios e o estado.
Houve uma mobilização notável por meio do projeto Reconstruir RS, que reuniu mais de dois mil voluntários, principalmente do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná. Em Canoas, o trabalho de elaboração de vistorias e laudos técnicos foi intenso. Pela primeira vez na história, isentamos a taxa da Anotação de Responsabilidade Técnica. Dessa forma, os profissionais puderam atuar voluntariamente com respaldo legal no dimensionamento dos danos. Essa iniciativa entregou aos prefeitos uma ferramenta técnica para fundamentar os decretos de emergência, agilizando as solicitações de recursos aos governos estadual e federal e permitindo contratações de reparos o mais rápido possível e de forma gratuita.
Além disso, participamos de 12 câmaras técnicas do Plano Rio Grande para monitorar o desdobramento das obras, visto que ainda temos muitas intervenções a fazer e pontes a recuperar. Durante esse processo, o debate sobre a pista do aeroporto me levou a um fórum composto por uma maioria de médicos e um deputado federal, onde leigos questionavam a capacidade dos nossos profissionais e exigiam mais estudos hidrogeológicos.
Há momentos em que precisamos assumir uma postura firme, pois situações assim beiram o exercício ilegal da profissão. Utilizei o exemplo de uma mesa de cirurgia: se um médico informa à família que o procedimento demorará mais uma hora, ninguém contesta, porque confiam na formação daquele especialista. Por que com a engenharia o tratamento é diferente? Por que todos se sentem habilitados a opinar tecnicamente? Ou você é formado na área, ou não é.
Qual legado a senhora busca deixar para a instituição ao final do seu segundo mandato?
“Legado” é uma palavra que carrega um peso e uma responsabilidade imensos. Para mim, a principal marca é a valorização das pessoas. Nenhuma gestão funciona sem reconhecer quem trabalha ao seu lado. Somos um serviço público federal por delegação do estado. Atuo como agente pública honorífica, sem salário, recebendo apenas R$ 39,40 diários para custear o deslocamento de carro entre o conselho em Esteio e Porto Alegre.
O nosso corpo funcional tem uma média de 30 anos de experiência. Sinto um grande orgulho por ter resgatado a motivação de servidores que, mesmo após quatro décadas de dedicação, redescobriram o prazer de executar atividades diferentes. Demonstrar aos profissionais que sempre há tempo e espaço para inovar é, sem dúvida, um legado valioso. No restante, prefiro que os resultados do trabalho falem por si.
Outro objetivo central é evidenciar que a engenharia permeia diversas atividades invisíveis ao público geral, o que se torna fundamental diante da queda na procura pelos cursos da área. Para ilustrar essa versatilidade, já saltei no maior bungee jump do Brasil, em Bento Gonçalves — obviamente com os equipamentos devidamente testados —, e fiz salto de pêndulo. A intenção é provar que podemos exercer a profissão em espaços que fogem do senso comum. A nova geração de estudantes precisa compreender que não é necessário estar em um canteiro de obras para atuar na engenharia civil; existem inúmeras alternativas e inovações. Cabe ao conselho transmitir essa nova perspectiva aos jovens.
Entrevista: Claudio Andrade e Rafaela Machado






