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Resiliência Que Reconstrói

As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul não foram apenas um desastre natural.

Foram uma ferida aberta na história do Estado, especialmente no Vale do Taquari, região que esteve entre as mais duramente atingidas, com perdas humanas, destruição de moradias, pontes, estradas, empresas, lavouras, escolas, espaços públicos e referências afetivas de comunidades inteiras. O que a água levou não se resume a bens materiais. Levou memórias, segurança, rotinas e parte da identidade de cidades que precisaram reaprender a viver depois da tragédia.

Mas, diante da destruição, surgiu também uma das maiores demonstrações de resiliência coletiva já vistas no Rio Grande do Sul e no Brasil. A reconstrução não começou apenas com máquinas, projetos e recursos públicos. Começou com mãos estendidas, voluntários, entidades, empresas, profissionais liberais, universidades, igrejas, associações comunitárias, órgãos técnicos e instituições que compreenderam que reconstruir exige mais do que vontade: exige planejamento, responsabilidade e conhecimento.

Nesse contexto, o papel de entidades e órgãos como o CREA se torna fundamental. A reconstrução de uma região devastada não pode ser conduzida apenas pela pressa emocional de devolver casas, pontes e prédios. Ela precisa ser feita com segurança técnica, avaliação de riscos, fiscalização, engenharia responsável, estudos de solo, análise estrutural, drenagem urbana, planejamento viário, soluções ambientais e visão de futuro. Reconstruir no mesmo lugar, da mesma forma e com os mesmos erros pode significar preparar novas tragédias.

O CREA, ao lado de engenheiros, agrônomos, geólogos, arquitetos, técnicos, gestores públicos e entidades de classe, representa essa dimensão indispensável da reconstrução: a dimensão da técnica a serviço da vida. Sua atuação, direta ou articulada com profissionais e instituições, ajuda a dar segurança às decisões públicas e privadas. Laudos, vistorias, orientações, fiscalização profissional e apoio técnico são instrumentos que protegem famílias, qualificam obras e evitam improvisações perigosas.

A sociedade civil também teve papel decisivo. Empresas doaram materiais, entidades organizaram campanhas, voluntários limparam casas, produtores rurais recomeçaram lavouras, comerciantes reabriram portas e famílias reconstruíram suas vidas com coragem. O Vale do Taquari mostrou que resiliência não é apenas suportar a dor; é transformar sofrimento em movimento, perda em aprendizado e destruição em compromisso com o futuro.

A tragédia também ensinou que desenvolvimento não pode ser separado de prevenção. Cidades precisam rever seus planos diretores, mapas de risco, ocupações em áreas vulneráveis, sistemas de alerta, drenagem, pontes, estradas e políticas habitacionais. A reconstrução verdadeira não é simplesmente devolver o que existia antes, mas construir melhor, com mais segurança, inteligência e respeito à natureza.

O Rio Grande do Sul precisa reconhecer que a reconstrução é uma tarefa de longo prazo. Governos têm responsabilidade central, mas não conseguirão fazer tudo sozinhos. A resposta precisa ser integrada: poder público, universidades, entidades empresariais, organizações sociais, imprensa, lideranças comunitárias e cidadãos. Cada um tem uma função. Cada contribuição importa.

No Vale do Taquari, onde a destruição foi profunda, a reconstrução carrega também um valor simbólico. Cada ponte refeita, cada casa entregue, cada empresa reaberta e cada comunidade reorganizada representa uma vitória sobre o medo. É a prova de que uma região pode ser atingida pela força das águas, mas não precisa ser vencida por elas.

A grande lição das enchentes de 2024 é que resiliência não pode ser confundida com conformismo. Ser resiliente não é aceitar tragédias como destino. É reagir com coragem, mas também cobrar planejamento, prevenção, técnica e responsabilidade. É entender que a solidariedade salva no primeiro momento, mas a engenharia, a gestão pública e a organização social salvam no futuro.

O Vale do Taquari se tornou símbolo da dor, mas também da capacidade de recomeçar. E esse recomeço precisa ser conduzido com respeito às vidas perdidas, às famílias atingidas e às próximas gerações. Reconstruir é mais do que erguer paredes. É reconstruir confiança, segurança, pertencimento e esperança. É fazer da tragédia uma virada histórica para um Rio Grande do Sul mais preparado, mais humano e mais consciente.

  • Presidente da União dos Vereadores do Brasil (UVB) e vereador em Iraí/RS

Gilson Conzatti
Gilson Conzatti
Presidente da União dos Vereadores do Brasil (UVB) e vereador em Iraí/RS

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