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Entrevista comJoão Alberto Aquino GomesPresidente da AMM e prefeito de Rolador

Entrevista exclusiva com o presidente da AMM

Presidente da Associação dos Municípios das Missões (AMM) e prefeito de Rolador, João Alberto Aquino Gomes está à frente da articulação regional em um ano marcado pelas comemorações dos 400 anos das Missões Jesuíticas Guaranis.

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João Alberto Aquino Gomes

Nesta entrevista, ele apresenta a história dos dois ciclos missioneiros, destaca o patrimônio ainda pouco conhecido de Rolador e defende uma estratégia integrada para ampliar o turismo nos 27 municípios da associação. Também aborda os investimentos do Pró-Missões, a cooperação entre as prefeituras e as incertezas provocadas pela reforma tributária. O Programa Em Evidência na TV (aos domingos na Masper TV, canal 520 da Claro NET, das 17h30 às 18h30, e também no canal @revistaemevidencia no YouTube) traz uma conversa sobre memória, desenvolvimento regional e os desafios enfrentados pelos pequenos municípios. Confira

Quais são as principais características do município de Rolador? 

Rolador fica a aproximadamente 500 quilômetros de Porto Alegre. É um município novo, com 26 anos de emancipação, integrante da última leva de cidades emancipadas no Rio Grande do Sul. Temos cerca de 2.500 habitantes e uma economia baseada na agricultura, característica comum a grande parte da região missioneira.

Quais são as prioridades da AMM durante as comemorações dos 400 anos das Missões?

Assumi a presidência da AMM em março, em um ano muito especial para a região. A comemoração oficial dos 400 anos ocorreu em 3 de maio, em São Nicolau, marcando a chegada dos padres jesuítas ao território que hoje é o Rio Grande do Sul.
Esse momento representa um grande desafio para a associação. Precisamos aproveitar a visibilidade das comemorações para apresentar nossa história, nossa cultura e nossa gastronomia. A AMM está próxima de completar 60 anos e, além do suporte permanente oferecido aos municípios, assumiu o papel de impulsionar essa divulgação.

Por que as Missões são consideradas o ponto de origem histórica do Rio Grande do Sul?

Costumamos dizer que o Rio Grande começou pela região missioneira, mais precisamente por São Nicolau. Os povos guaranis já habitavam o território, mas a chegada dos padres jesuítas, há 400 anos, deu início a uma nova organização social e cultural.

As Missões tiveram dois ciclos. No primeiro, foram formados 30 povos entre os territórios que hoje pertencem ao Brasil, à Argentina e ao Paraguai. São Nicolau foi a primeira redução. A segunda foi Nossa Senhora da Candelária de Caazapá-Mini, no atual município de Rolador. Também pertencem a esse período Assunção do Ijuí, em Roque Gonzales, e Caaró, em Caibaté.

As construções do primeiro ciclo utilizavam principalmente madeira, taipa e barro, materiais que desapareceram com o tempo. No segundo ciclo foram constituídos os Sete Povos das Missões, cujas estruturas de pedra ainda podem ser vistas. 

É o caso de São Miguel, reconhecido como patrimônio da humanidade, além de vestígios preservados em São Nicolau, Santo Ângelo, São Lourenço e São João Batista, em Vitória das Missões.

Que marcas essa experiência deixou na cultura gaúcha?

A convivência entre os guaranis e os europeus criou uma fusão de culturas que permanece na linguagem, na música, na gastronomia e nos costumes da população missioneira. As reduções não duraram muito tempo, mas deixaram uma raiz muito forte, presente no canto missioneiro, nos artistas da região e na forma como preservamos essa identidade. 

A produção de vinho também começou nas Missões. Os padres espanhóis trouxeram vinho para as celebrações religiosas e, como não podiam importá-lo continuamente, passaram a cultivar uvas e produzir a bebida na própria região, ainda sem finalidade comercial.
O gado entrou no Rio Grande do Sul por intermédio do padre Pedro Romero. Inicialmente era utilizado no trabalho da terra. Depois, passou a fornecer leite, carne, couro e outros produtos. Por isso, também relacionamos às Missões o início da tradição do churrasco no Estado.

Quais roteiros já permitem conhecer a região missioneira?

Temos a Trilha dos Santos Mártires, que sai de São Nicolau, atravessa vários municípios, inclusive Rolador, e segue até Caaró, em Caibaté. Existem ainda a Rota Missões, com maior presença da gastronomia, a Cavalgada dos Santos Mártires e um percurso de bicicleta. 
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Na trilha, o visitante caminha pelo interior, conhece a história e pode pernoitar nas casas das famílias. Os moradores recebem os caminhantes com café e jantar, muitas vezes sem cobrança. É uma experiência muito interessante, mas ainda precisamos encontrar a melhor forma de divulgá-la.
Os 400 anos criaram uma oportunidade para ampliar esses roteiros. O governo do Estado e os municípios estão investindo na região, e agora precisamos transformar esse movimento em visitação permanente.

Como a união dos 27 municípios fortalece a atuação da AMM?

A AMM reúne municípios muito diferentes. Santo Ângelo tem mais de 80 mil habitantes, São Luiz Gonzaga tem pouco mais de 30 mil, enquanto Rolador possui cerca de 2.500. Também existem grandes diferenças territoriais. O objetivo comum é promover o desenvolvimento regional.

Um município pequeno encontra muitas dificuldades quando atua sozinho. A associação permite trocar experiências, buscar soluções conjuntas e aproveitar iniciativas que deram certo em cidades semelhantes. Desde que assumi a prefeitura, oriento os secretários a manter contato com as equipes dos outros municípios e adaptar aquilo que funciona. 

Também contamos com assessoria jurídica para demandas mais complexas e para orientar os prefeitos diante de responsabilidades criadas por novas leis sem a correspondente transferência de recursos. Além disso, estamos discutindo a criação de um consórcio de licitações. Compras realizadas em maior escala podem reduzir os preços para as prefeituras. 

Qual é o alcance dos investimentos do Pró-Missões?

O governo do Estado está destinando aproximadamente R$ 80 milhões à região por meio do Pró-Missões, programa criado em razão dos 400 anos. Os municípios devem acrescentar entre R$ 18 milhões e R$ 20 milhões em contrapartidas. Esse resultado foi possível pela união das 27 prefeituras, que terão investimentos relacionados às comemorações. 

A maior parte desses recursos está direcionada ao turismo. Esperamos que os projetos criem infraestrutura e oportunidades econômicas duradouras, para além do calendário comemorativo. 

Como distribuir o fluxo turístico para além de Santo Ângelo e São Miguel das Missões?

Santo Ângelo é a cidade-polo e conta com aeroporto, atualmente com voos para Porto Alegre e São Paulo. O terminal está sendo ampliado e buscamos novas rotas. São Miguel, por sua vez, possui uma estrutura histórica extraordinária e naturalmente concentra muitos visitantes.
Nosso objetivo é crescer junto com esses dois destinos. Precisamos oferecer roteiros que incluam Rolador, Roque Gonzales, São Luiz Gonzaga, Cerro Largo e os demais municípios. Além do patrimônio missioneiro, a região reúne culturas trazidas por outros povos. Temos forte presença germânica, a Oktoberfest Missões, comunidades italianas e uma tradição polonesa muito marcante em Guarani das Missões. Essa diversidade aparece principalmente na gastronomia.

Qual é a importância de aproximar as novas gerações desse patrimônio?

Visitei São Miguel pela primeira vez quando tinha oito ou nove anos, em uma viagem escolar. Naquela época, ainda era possível subir por uma escadaria interna da igreja, hoje fechada por segurança. Nunca esqueci aquela experiência.
Ao entrar nas ruínas, sentimos uma emoção diferente. Muitas vezes viajamos para outros países em busca de história, mas temos um patrimônio de 400 anos muito próximo. As escolas são fundamentais para que as crianças conheçam esse legado e compreendam por que ele precisa ser preservado.

Que vestígios do primeiro ciclo missioneiro foram encontrados em Rolador?

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A redução de Nossa Senhora da Candelária de Caazapá-Mini foi fundada no território onde hoje está Rolador. A área fica em uma propriedade rural particular e foi pesquisada por historiadores na década de 1970. Ainda é possível encontrar fragmentos de cerâmica no local. 
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O Museu de Ijuí guarda peças provenientes da redução, entre elas um jarro de cerâmica que, segundo historiadores e técnicos do Iphan, seria a única peça inteira conhecida do primeiro ciclo no Rio Grande do Sul. Também existem telhas preservadas. Há materiais no Colégio Anchieta e, segundo as informações que recebemos, a Unisinos conserva mais de mil fragmentos retirados da área. 

O município ainda não possui museu. O Museu de Ijuí já se colocou à disposição para devolver as peças quando tivermos uma estrutura adequada para recebê-las.

Como o município pretende preservar e apresentar essa história?

Com recursos do Pró-Missões, estamos preparando um espaço dedicado à história de Nossa Senhora da Candelária. A cerca de 600 metros da área arqueológica existe uma escola desativada em terreno municipal. O prédio será revitalizado para receber um memorial e visitantes. 

Os relatos históricos indicam que a redução chegou a reunir entre 3 mil e 6 mil indígenas. Queremos oferecer um ponto de visitação para quem percorre os antigos povos missioneiros e, ao mesmo tempo, levar essa história às escolas de Rolador. A preservação começa quando as crianças conhecem o lugar onde vivem e entendem seu valor.

Como a AMM concilia prefeitos de diferentes partidos e realidades municipais?

A questão partidária não interfere no trabalho da associação. Meu partido possui apenas três prefeitos entre os 27 municípios, e mesmo assim fui escolhido presidente. Isso demonstra que o critério é o interesse regional. As cobranças são feitas da mesma forma, independentemente de quem governa o Estado ou o país. 

Realizamos uma assembleia mensal. A sede da AMM fica em Cerro Largo, por ser uma localização central, mas nesta gestão também passamos a levar as reuniões aos municípios. Isso permite que os prefeitos conheçam outras realidades e aproxima a associação das comunidades. 

Primeiro tratamos das pautas regionais. Depois, cada município pode apresentar uma demanda ou proposta para avaliação do plenário. Quando existe concordância, todos se mobilizam em torno da causa. 

Quais são as preocupações dos pequenos municípios com a reforma tributária?

Logo que assumi a AMM, realizamos uma reunião extraordinária com Luís Fernando, conselheiro aposentado, para conversar com os prefeitos e as equipes das áreas de Fazenda. Desde então, buscamos informações continuamente com o apoio das assessorias da associação. 

Ainda recebemos interpretações muito diferentes. Um tributarista apresenta uma leitura e outro entende de maneira distinta. Para um município de 2.500 habitantes, qualquer mudança na distribuição dos tributos pode ter grande impacto. Por isso, acompanhamos o assunto com muita atenção