Radar RS
Opinião

As eleições e os debates que não veremos

O autor argumenta que temas cruciais como educação, infraestrutura, defesa nacional e reforma do Estado não serão abordados, refletindo a apatia social e a falta de opinião qualificada.

As eleições e os debates que não veremos — Revista Em Evidência

A chegada do ciclo eleitoral deve mobilizar os atores políticos e as forças vivas da sociedade. Tratando-se da definição acerca do futuro do país, não poderia ser diferente.

Contudo, há temas que infelizmente permanecerão ausentes. Em meio a verborragia dos debates, narrativas e propagandas, acaso ouviremos algo consistente sobre quais seriam os projetos dos candidatos para alavancar os indicadores da educação, promover a infraestrutura, fortalecer a defesa nacional, preparar o país ao salto tecnológico que se anuncia, reduzir nossa dependência de insumos estratégicos e explorar nossas terras raras, defenestrar o crime organizado, forjar uma reforma estrutural do Estado, do Judiciário e da política?

Todos os sinais nos levam a crer que seja razoável supor uma resposta negativa. Primeiramente, a sociedade não se interessa por tais temas, imersa que está na apatia ou nos debates de torcida que tornaram a política um espetáculo de “lacração”. Sendo outras as fontes da tomada de decisão de voto, as lideranças buscam pragmaticamente otimizar seus esforços, ofertando ao público aquilo que o público deseja. Para o mais, as elites do país (no sentido pleno do termo) se abateram de tal modo que a formação da opinião qualificada foi reduzida à raridade dos grupúsculos, que por sua vez perderam a conexão com os detentores do poder. Assim, o perfil dos políticos, gostemos ou não, reflete a sociedade que representam, ficando esquecida a discussão sobre nossos rumos estratégicos. É um círculo vicioso que amarra o país.

Que fazer? Os caminhos são tortuosos, mas Ortega y Gasset nos deixou um rastro de luz. “As nações se formam e vivem de ter um programa para o amanhã”, dizia o filósofo espanhol, acrescentando que um povo verdadeiro é “uma comunidade de propósitos”, ainda que permeada pelo pluralismo. Aos líderes, caberia a decifração desses intentos comuns, conferindo-lhes “senso de direção” e espírito público. No fundo, não é pedir muito, mas é tudo o que não temos.