Da vivência comunitária à atuação parlamentar, Patrícia Alba apresenta uma leitura direta sobre política, pressão pública e mandato e temas que impactam a vida cotidiana da população gaúcha. Nesta entrevista abordada desde a mobilização em torno das RS-118 e seus reflexos para a economia da região até os desafios da educação pública, da inclusão escolar e das políticas de enfrentamento à violência contra a mulher. O programa Em Evidência na TV (aos domingos na Maxx TV, canal 520 da Claro NET, das 18h às 19h, e também no canal @revistaemevidencia no YouTube) entrevistou a deputada em uma conversa marcada por gestão, representação e debate público. Confira
Deputada Patrícia Alba, a senhora é advogada por formação e iniciou sua trajetória após atuar em projetos sociais e comunitários. Quais fatores a levaram a ingressar na vida política partidária?
Patrícia Alba: A partir da perda do meu pai, devido a um AVC, fui motivada a me envolver em ações comunitárias e a atuar na política. Sempre fui muito ligada à comunidade, e essa experiência me despertou o interesse de contribuir mais diretamente com as pessoas. Em 2018, me elegi deputada estadual e, desde então, sigo trabalhando por pautas voltadas ao desenvolvimento do Rio Grande do Sul e à melhoria da qualidade de vida da população.
Antes de assumir um cargo na Legislativa, a senhora atuou como primeira-dama durante o mandato de Marcos Alba na prefeitura de Gravataí. Como essa experiência influenciou sua visão sobre a administração pública?
Foi um período de trabalho profundo junto a toda a comunidade de Gravataí. Eu já havia acompanhado a vida pública do meu marido, quando ele foi deputado estadual, mas como primeira-dama, pude atuar mais próxima da população e ver resultados sendo construídos que perduram até hoje na cidade. Sempre entendi a política como uma ferramenta, mas acredito que meu papel era de bastidor, o que também foi fundamental. No entanto, em 2018, resolvi dar um passo em uma nova caminhada e concorrer a um cargo legislativo.
À frente de um mandato, temos um poder de voz bastante forte nas lutas por políticas públicas e legislações. Na minha primeira eleição, fiquei como suplente, mas acabei assumindo. Posteriormente, fui reeleita e tenho muito orgulho de ter trabalhado em ações na Assembleia Legislativa com resultados reais. A política não é uma tarefa fácil e exige uma postura diferenciada, pois o agente público está ali para servir ao interesse coletivo, e não ao privado. O político tem o dever de trabalhar para uma vida digna para o eleitorado e para melhorar.
A senhora foi reeleita com mais de 64 mil votos. De que maneira o peso da sua representatividade reflete nas suas decisões diárias na Assembleia Legislativa?
Diariamente, analiso o impacto que minhas decisões terão na vida das pessoas. Toda decisão política tem consequências, sejam elas favoráveis ou não, mas deve ter o objetivo público de melhorar a vida da maioria. Essa expressão vocação me faz lembrar constantemente da responsabilidade de priorizar o benefício coletivo, seja nas votações no Parlamento, seja nas ações cotidianas.
Um exemplo prático foi a questão da região na RS-118, uma proposta iniciada pelo governador Eduardo Leite que posteriormente foi alterada por um modelo free flow. Com uma forte mobilização da Assembleia e da sociedade civil organizada, conseguimos evitar a instalação de uma praça de cobrança no local, o que alteraria negativamente toda a estrutura econômica da região. Conseguimos demover o governador dessa ideia e, além de barrar o pedágio, garantir o avanço da duplicação da rodovia.
Em relação às obras na RS-118, qual é o atual estágio de execução e o que ainda falta concluir?
Resposta: Atualmente, temos a duplicação concluída no trecho entre Gravataí e a RS-116. No entanto, ainda falta duplicar a extensão de Gravataí até Viamão, que compreende cerca de 12 quilômetros. Era justamente nessa parte que o governo estadual pretendia instalar o pedágio, plano que agora está definitivamente descartado via decisão do concessionário da rodovia.
A instalação de um pedágio nesse trecho encareceria o deslocamento diário da população, que seria o impacto real dessa medida para a economia dos municípios do entorno?
Gravataí tornou-se um grande polo logístico devido à sua localização estratégica, consolidada pela diversas vias importantes: RS-118, BR-116, ERS-020, RS-040 em Viamão, e a própria Freeway. Essa facilidade logística atrai inúmeros empresas, indústrias e distribuidores, que fizeram também as cidades vizinhas. Esse desenvolvimento econômico foi conquistado não apenas por uma reorganização do governo municipal, mas também pelo mercado da antiga praça de pedágio da Freeway, que ficou dentro de Gravataí e foi transferida para um ponto mais afastado, livre do trânsito urbano.
A colocação de um novo pedágio na RS-118 prejudicaria enormemente não só Gravataí, mas toda a região. Cidades como Alvorada, que enfrentam dificuldades econômicas e precisam de um olhar diferenciado do Estado para se desenvolverem, seriam diretamente penalizadas. Esses impactos precisariam ser ponderados e foram os pilares da nossa mobilização contra a cobrança.
Mudando de assunto, a senhora foi reconduzida à presidência da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa. Quais são as pautas prioritárias para este novo ciclo de trabalho?
Pelo regimento interno da Assembleia, as comissões são distribuídas proporcionalmente entre as maiores bancadas. O MDB tem o direito de presidir a Comissão de Educação por dois anos, e optamos pela escolha interna, permanecendo na presidência por mais um ano. Fico bastante feliz, pois o nosso trabalho está em pleno andamento.
No ano passado, iniciamos o ciclo de debates Educação Agora, que percorreu o estado discutindo o Plano Nacional de Educação (PNE). Esse plano orientará o planejamento educacional do país para a próxima década e, após tramitar no Congresso, ainda precisará ser votado na Comissão. Discutimos cada tema aqui no Rio Grande do Sul para entender nossas realidades. Este ano, iniciaremos os debates sobre o Plano Estadual e os planos municipais de Educação. Vamos focar em metas fundamentais, como o percentual de alunos matriculados, a universalização do atendimento para crianças de zero a três anos e a implementação do turno integral.
Além disso, enfrentamos o grande desafio da infraestrutura escolar. Nas últimas três décadas, tivemos apenas manutenções paliativas, o que resultou em escolas com estruturas muito precárias. Nosso estado enfrenta um calor intenso no verão, e os alunos precisam de ambientes adequados para aprender. Porém, esbarramos em obstáculos básicos: como instalar ar-condicionado se a rede elétrica das escolas não comporta? Problemas e isso, precisamos acompanhar as ações do governo para evitar a evasão escolar, consolidar um sistema pedagógico eficiente e alinhar o ensino às modernizações tecnológicas.
Outro ponto sensível é a inclusão de alunos com deficiência na rede regular de ensino. Na sua avaliação, quais são os maiores gargalos para que essa inclusão seja, de fato, efetiva?
Essa é uma temática central. Os desafios na área da educação são estruturais, mas na inclusão eles se ainda maiores pela necessidade de atenção especializada. Hoje, praticamente toda sala de aula tem um ou mais alunos de inclusão. Os professores vêm sendo muito dedicados e, por vocação, costumam fazer além de suas obrigações, mas esbarram na falta de preparo, pois não tiveram essa suporte na sua formação original. Somado a isso, enfrentamos um déficit crônico na formação continuada, que o Estado tem dificuldade de fornecer.
Entrevista: Rafaela Machado / Lucio Vaz
Repórter: Lucio Vaz
Revisão: Rafael Chaves
Fotos: Chico Pereira / Marcelo Bertani





