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A IA entrou na campanha e não há botão de desligar

Opinião de Isis Varggas

A inteligência artificial já entrou no jogo eleitoral e fingir que isso ainda é assunto do futuro é um erro estratégico. Quem acompanha comportamento digital percebe que a relação das pessoas com a tecnologia mudou de nível. Não estamos mais falando apenas de redes sociais ou de mecanismos de busca. Estamos falando de conversa. De diálogo direto entre o eleitor e sistemas de IA que respondem dúvidas, explicam temas e organizam informações políticas de forma personalizada. Uma matéria recente do G1 trouxe à tona exatamente esse ponto ao mostrar que chatbots já influenciam eleitores e colocam novos desafios para a regulação eleitoral. Isso não é teoria acadêmica distante da realidade. É prática cotidiana de quem abre o celular e pergunta o que está acontecendo na política.

O que torna esse cenário tão relevante é um detalhe que muita gente ainda não conseguiu digerir. Não existe botão de proibir conversa. A base do fenômeno é simples. Pessoas estão buscando informação política conversando com IAs. Perguntam sobre candidatos, propostas, ideologias, histórico, contexto econômico e social. Pedem explicações, comparações e até ajuda para entender o que é verdade no meio de tanta informação confusa. Diferente de um anúncio, de um santinho ou de um programa eleitoral, a IA responde de forma interativa, ajustando a resposta à dúvida específica de quem pergunta. Isso cria uma experiência de proximidade e utilidade que aumenta o poder de influência.

É claro que órgãos como o Tribunal Superior Eleitoral estão atentos ao tema. A Justiça Eleitoral discute regras, limites e formas de lidar com o uso de tecnologia nas campanhas. Isso é necessário e faz parte da proteção do processo democrático. Mas existe um limite prático que precisa ser encarado com realismo. Regulamentar propaganda é uma coisa. Regulamentar impulsionamento é outra. Agora, como impedir uma pessoa de abrir um aplicativo e fazer uma pergunta? Como fiscalizar cada conversa privada entre um eleitor e uma IA? Como determinar que um sistema de inteligência artificial não pode falar sobre política se política atravessa saúde, economia, educação, segurança e o cotidiano inteiro das pessoas? A lógica de controle que funcionava na era da TV e do rádio não se encaixa perfeitamente nesse novo ambiente.

Do ponto de vista estratégico, o mais importante é entender que a influência da IA não acontece porque ela dá uma ordem de voto, mas porque ela participa do processo de formação de opinião. Eleição é decisão em meio à dúvida. Quando alguém está inseguro, ele busca referências. Antes perguntava ao vizinho, ao líder comunitário, ao apresentador de televisão, ao radialista. Hoje também pergunta à IA. Ela organiza argumentos, apresenta prós e contras, resume temas complexos e ajuda a pessoa a se sentir mais segura para decidir. Isso já é influência, mesmo que indireta.

Ao mesmo tempo, é um erro achar que isso substitui a política tradicional. Gente continua votando em gente. Confiança continua sendo construída com presença, trabalho real, liderança, história e conexão com o território. Campanha de rua, base bem estruturada, relacionamento com a comunidade e atuação concreta seguem sendo pilares do processo eleitoral. A IA não elimina isso. Ela muda o ambiente onde tudo isso é percebido e interpretado. Um candidato que não tem narrativa clara, que não comunica bem suas ideias ou que deixa lacunas de informação, terá essas lacunas expostas quando o eleitor for buscar respostas em uma IA. Por outro lado, quem tem posicionamento consistente e propostas bem estruturadas tende a ser melhor compreendido nesse novo cenário.

O que está acontecendo é uma expansão do campo de batalha da comunicação política. Não é mais só a praça, o programa de TV ou o feed da rede social. É também a conversa privada, silenciosa, feita no celular, na hora da dúvida. E essa conversa não pode ser simplesmente desligada por decreto. Por isso, negar o fenômeno ou tratar como exagero tecnológico é uma postura arriscada. A postura madura é entender que o eleitor mudou, que o comportamento de busca por informação mudou e que a estratégia precisa acompanhar essa transformação.

A democracia sempre foi moldada pelas tecnologias de comunicação de cada época. O rádio alterou a forma de fazer campanha. A televisão transformou a política em espetáculo de massa. As redes sociais trouxeram segmentação e velocidade. Agora a inteligência artificial conversacional adiciona um novo elemento, a interação personalizada em escala. Não se trata de medo, mas de adaptação. Quem disputa eleição precisa compreender que a decisão do voto passa também por essa nova camada de diálogo entre pessoas e máquinas. O jogo político continua sendo humano, mas o ambiente onde ele acontece ficou mais complexo. E, gostemos ou não, a IA já faz parte dele.

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