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02/05/2021

De que tecido social é feito este país? Do ponto de vista  histórico, somos produto da miscigenação. Pequenos países dentro de um Brasil continente – e vai muito além da configuração meramente geográfica dos Estados. Eu, por exemplo, sou cria de São Borja (fundada em 1682), na Fronteira Oeste, primeiro dos Sete Povos das Missões, uma estratégia da Santa Igreja Católica, com os jesuítas espanhóis, para catequizar os índios, que até aprenderam a ler e a escrever, e mais alguns ofícios, mas um dia também perderam terras e identidade. E se perderam mundo afora, até serem praticamente dizimados. Mas aí é outra história.

Também conheci um outro país, nesse caso aqui no Vale do Caí, pertinho de Porto Alegre, a próspera Feliz, apontada pela ONU como a primeira em qualidade de vida do país, em 1997. Naquela época, o prefeito era o amigo Clóvis Assmann, de quem eu era assessor de imprensa. Portanto, vi isso de perto. Considero-a como a minha segunda cidade natal, onde era visto como um “ploa”, uma derivação do que seria “pelo duro”, os mestiços, pele mais escura. Era uma maneira de eles dizerem “não alemão”. E não havia demérito nisso nem preconceito, muito menos de um povo que durante a Segunda Guerra (1939-1945), aqui nas colônias alemãs, fora impedido de falar seu idioma, por conta de um tal Adolfo.

Mas é da malandragem que eu quero falar. Com tantos bons exemplos, de tantos povos, de onde nasce esse país malandro, da esperteza? Não aquela esperteza da sagacidade. Refiro-me aos ladinos, aos velhacos. Assim como a indisciplina nasce de pequenas concessões, desconfio que um país se entorta a partir de pequenos vícios. Não sei se pelo fato de sermos o país da burocracia, de uma cultura bacharelesca, cartorial, mas o certo é que temos uma inclinação quase que genética para o jeitinho.

Sempre tem alguém que conhece um atalho, um caminho mais fácil, uma maneira de driblar alguém ou alguma coisa. Cidadania é um termo quase que exclusivamente de época de campanha eleitoral. Funciona meio que como apelo para o sujeito ter de votar, cumprir com sua cidadania. Fora isso, cidadão segue sendo um substantivo de quinta categoria. “Ah, minha amiga, nesta boa terra os mandamentos da lei de Deus são como as posturas municipais... Ninguém respeita!" Frase de Artur Azevedo, em 1891, em sua revista “O Tribofe”, do Rio de Janeiro.

Ganha um curso gratuito de uso do qual, pelo qual, no qual quem não tiver um amigo que mantenha o whats naquela função de não mostrar se a mensagem foi entregue ou não. Eu acho isso o símbolo da nova malandragem. Uma esperteza em tempos de algoritmos, o que mostra a nossa incrível capacidade de adaptação enquanto novos bilontras. Por qual razão fazem isso? Pra dizer “eu nem vi a tua mensagem”? Todos sabemos que esse é justamente o motivo, fazer que não viu.

É assim, de pequenos vícios que se faz uma nação. E depois torcemos os narizes para os odores das urnas.

LUIZ FERNANDO AQUINO
Secretário adjunto de Governança e
Comunicação Social da Prefeitura de Gravataí

 
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