Governar com evidências: a escolha de São Lourenço do Sul pela ciência na gestão pública e a adesão à rede What Works Cities
Com R$ 2,1 bilhões em perdas climáticas em 30 anos, São Lourenço do Sul reestruturou o monitoramento local e iniciou a busca pela certificação internacional What Works Cities.
Nos últimos 30 anos, segundo dados da Defesa Civil Estadual, com base no Sistema S2iD, São Lourenço do Sul acumulou prejuízos estimados em R$ 2,1 bilhões em decorrência de eventos climáticos severos, incluindo enchentes, vendavais, granizo, secas e dois episódios de precipitação intensa, resultando na homologação de cinco decretos de emergência apenas no último ano. Diante da elevada frequência desses eventos extremos, a definição de prioridades de intervenção, a alocação de recursos e a antecipação de medidas de proteção à população tornam-se cada vez mais dependentes de informações precisas.
Esse cenário reforça a premissa de que a mera disponibilidade de dados é insuficiente, uma vez que métricas isoladas possuem baixo poder explicativo. A qualidade das informações e sua aplicação estratégica fundamentam a escolha pela adoção da ciência na tomada de decisões, em consonância com princípios essenciais da administração pública, como eficiência, economicidade, transparência e resolutividade.
Sob essa diretriz, o monitoramento climático municipal foi reestruturado com o respaldo de instituições científicas. A iniciativa contemplou a instalação de pluviômetros, a implantação de uma estação meteorológica do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) no campus da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e a formalização de acordos de cooperação com o Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos (CIEX/FURG) e com o curso de Hidrologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).
O arcabouço de informações produzido passou a subsidiar ações estratégicas, como a elaboração do Plano Municipal de Macrodrenagem, já aprovado pela Secretaria Nacional de Reconstrução do Rio Grande do Sul, e do Projeto de Macrodrenagem selecionado no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que receberá aporte de R$ 37 milhões do governo federal.
O valor dessas informações está diretamente relacionado à sua confiabilidade. Dados frágeis produzem diagnósticos incertos e, consequentemente, decisões desprovidas de precisão analítica aumentam o risco de escolhas inadequadas. Com o objetivo de ampliar essa exigência metodológica para as diferentes áreas da administração municipal, com método e escala, o Município iniciou sua jornada rumo à Certificação What Works Cities, fundada pela Bloomberg Philanthropies e liderada pela Results for America. O marco inicial desse processo consiste em um diagnóstico administrativo interno, destinado a avaliar se as decisões governamentais estão fundamentadas em evidências, se existem arranjos institucionais capazes de consolidar essa prática ao longo do tempo e se os sistemas vigentes garantem a qualidade e a acurácia dos registros.
A rede What Works Cities atua nos Estados Unidos, no Canadá e em 14 países latino-americanos, congregando mais de 320 cidades e alcançando uma população de aproximadamente 99 milhões de habitantes. Desse conjunto, 109 cidades já obtiveram a certificação. Na América Latina, 33 localidades conquistaram o selo; no Brasil, figuram apenas oito, entre elas Belo Horizonte, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro e Porto Alegre, esta última a única representante gaúcha. A inserção de um município do porte de São Lourenço do Sul nesse processo evidencia que a gestão orientada por evidências não é uma prerrogativa exclusiva das grandes metrópoles. De caráter gratuito, o programa estrutura-se em três eixos: medir, por meio da avaliação de 43 critérios distribuídos em oito práticas; apoiar, mediante mentoria e elaboração de planos de ação; e conectar, promovendo o intercâmbio de experiências entre municípios. Não por acaso, a resiliência climática constitui uma das prioridades centrais entre os integrantes latino-americanos da iniciativa.
Cabe ressaltar que essa adesão não parte do zero. O planejamento estratégico municipal já é monitorado em parceria com a consultoria Áquila, com base no conceito de cidades excelentes. Esse acompanhamento utiliza 92 indicadores extraídos de bases públicas para aferir o desempenho das iniciativas locais e posicionar o Município em comparativos estaduais e nacionais.
A What Works Cities representa a etapa subsequente desse processo: transformar a avaliação contínua em uma metodologia efetiva de governo. Isso implica estabelecer metas, acompanhar o progresso, redirecionar recursos para soluções baseadas em evidências e disponibilizar informações à sociedade, ampliando a transparência por meio do governo digital. Dessa forma, planejamento, monitoramento, tomada de decisão e prestação de contas passam a operar de maneira sistêmica e integrada.
Entende-se, ainda, que as demandas locais estão diretamente conectadas às dinâmicas nacionais e globais. O intercâmbio com projetos e experiências de outros países alinha-se ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 17 da Organização das Nações Unidas (ONU), voltado ao fortalecimento das parcerias e dos meios de implementação.
Essa articulação amplia as possibilidades de novas alianças com fundos de investimento e organismos internacionais, com potencial para estimular novos negócios e gerar emprego e renda. Somada à integração à rede ICLEI, Governos Locais pela Sustentabilidade, ao bloco de cidades do BRICS+ e à adesão ao Pacto Global de Prefeitos pelo Clima, a participação na What Works Cities representa mais um avanço estratégico na consolidação de um novo ciclo de oportunidades viabilizado pela cooperação internacional.