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Opinião

A eleição será decidida fora da bolha

O eleitor que observa, compara e muda de posição conforme o contexto será o centro da disputa, como ocorreu em 2018 e 2022, e não se move por paixão ideológica.

Estamos nos aproximando de mais uma eleição nacional em um ambiente de alta instabilidade política. Os últimos acontecimentos envolvendo o Banco Master, a movimentação de lideranças nacionais e os ruídos públicos dentro dos principais campos políticos mostram que 2026 tende a ser uma disputa menos previsível do que muitos imaginavam.


Em cenários assim, é comum que os grupos mais engajados tentem transformar cada fato em confirmação de suas próprias convicções. Mas eleição não se decide apenas nas bolhas. A eleição se decide, sobretudo, no eleitor que observa, compara, avalia e muda de posição conforme o contexto.

Foi assim em 2018. Foi assim em 2022. E há fortes sinais de que será assim novamente em 2026.

O eleitor moderado, que não se move apenas por paixão ideológica, tende a ser novamente o centro da disputa. É aquele eleitor que pode ter votado em Bolsonaro em um momento e em Lula em outro, não necessariamente por fidelidade a um campo político, mas por avaliar qual alternativa parecia mais adequada naquele contexto. Esse perfil não costuma fazer barulho nas redes sociais, mas costuma ser decisivo nas urnas.

Neste momento, a eleição nacional ainda parece mais favorável ao campo governista do que à candidatura de Flávio Bolsonaro. Não porque exista uma definição consolidada, mas porque, até aqui, nenhum nome fora da polarização conseguiu demonstrar força suficiente para reorganizar o tabuleiro. A terceira via, quando existe apenas como desejo de parte do eleitorado ou do mercado político, não se transforma automaticamente em candidatura competitiva.

Mas eleição não é fotografia definitiva. É movimento.

No Rio Grande do Sul, a pesquisa Real Time Big Data trouxe um recado importante: o estado mantém uma tradição de não entregar a eleição cedo demais ao favorito das pesquisas. O levantamento mostra Juliana Brizola e Luciano Zucco à frente, mas também registra um crescimento de Gabriel Souza, vice-governador e nome ligado ao governo estadual.

Esse crescimento merece atenção analítica, não torcida. Gabriel começou mais distante dos dois polos mais identificados com a esquerda e a direita, mas passa a aparecer como um nome capaz de alterar a dinâmica da disputa. A pergunta é: esse avanço é circunstancial ou indica uma tendência?

Há algumas hipóteses possíveis. A primeira é a exposição. Gabriel tem participado com mais frequência dos debates e ocupado espaços públicos de discussão, enquanto outros nomes ainda dosam suas aparições. Em uma eleição longa, a presença constante pode ajudar a reduzir desconhecimento e construir imagem.

A segunda hipótese é a força da máquina. Candidatos ligados ao governo muitas vezes não largam com a mesma intensidade de quem está fora dele. A estrutura governamental tende a entrar no processo de forma gradual, no tempo da estratégia. Quando começa a operar politicamente, pode mudar o ritmo da disputa.

A terceira variável é a avaliação do governador Eduardo Leite. Se o governo mantiver uma percepção positiva junto a parte relevante do eleitorado, Gabriel pode tentar se apresentar como continuidade administrativa, reduzindo resistências e ampliando competitividade.

Nada disso significa que a eleição esteja definida. Pelo contrário. O cenário ainda favorece quem está na frente, mas acende um alerta: quem trata pesquisa como sentença corre o risco de não perceber a mudança de vento.

A campanha eleitoral não é corrida de 100 metros. É uma maratona. Vence quem tem fôlego, leitura correta do eleitor, capacidade de ajustar rota e disciplina para não confundir barulho com voto.

No plano nacional e no estadual, a grande disputa será pela confiança do eleitor menos ideológico. E esse eleitor, silencioso e pragmático, costuma decidir no tempo dele, não no tempo das torcidas políticas.