Radar RS
Entrevistas

Entrevista comLeandro HörllePrefeito de Igrejinha, presidente da Ampara e do Consórcio Pró-Sinos

Leandro Hörlle: equilíbrio fiscal e integração regional no novo ciclo de Igrejinha

Prefeito detalha a recuperação pós-enchente, investimentos em saúde e educação, a força da Oktoberfest e os projetos que conectam Igrejinha ao Vale do Paranhana.

10 min de leitura
Leandro Hörlle durante entrevista ao Programa Em Evidência na TV.
Leandro Hörlle durante entrevista ao Programa Em Evidência na TV. — Foto: Chico Pinheyro/Revista Em Evidência

Igrejinha chega aos 62 anos em um ciclo de reorganização, crescimento e afirmação regional. À frente da Prefeitura, Leandro Hörlle trata a gestão municipal a partir de uma lógica de equilíbrio financeiro, presença direta no atendimento à população e investimentos contínuos em saúde, educação, infraestrutura e mobilidade. Na entrevista, ele detalha a recuperação do município após a enchente de maio de 2024, a concentração dos serviços públicos em uma nova sede administrativa, o avanço da requalificação viária, os projetos na área da saúde, a construção de uma escola pública no Centro e a força da Oktoberfest, organizada por milhares de voluntários e com resultado financeiro revertido à comunidade. O diálogo também alcança temas que ultrapassam os limites de Igrejinha, como a regionalização dos serviços médicos no Vale do Paranhana, os desafios do saneamento na Bacia do Rio dos Sinos, a gestão de resíduos sólidos, a aprovação de novos loteamentos e os pleitos por melhorias nas rodovias estaduais. Presidente da Ampara pela terceira vez consecutiva e recém-empossado no Consórcio Pró-Sinos, Hörlle apresenta uma visão de cidade conectada à região, ao turismo, à produção econômica e às novas demandas de infraestrutura. A conversa foi ao ar no Programa Em Evidência na TV (aos domingos na Masper TV, canal 520 da Claro NET, das 18h às 19h, e também no canal @revistaemevidencia no YouTube). Confira.

Entrevista: Rafaela Machado e Cláudio Andrade · Edição: Lucio Vaz · Revisão: Patrícia Cruz · Fotos: Chico Pinheyro/Revista Em Evidência

Quais são os principais focos da gestão para Igrejinha neste novo ciclo, considerando também sua recente posse no Consórcio Pró-Sinos e o terceiro mandato consecutivo na Associação dos Municípios do Vale do Paranhana (Ampara)?

Em primeiro lugar, manter o equilíbrio das finanças públicas. Nenhum município, empresa ou família consegue se sustentar a longo prazo sem um ajuste constante das contas. A segunda meta é o atendimento à população, especialmente em saúde e educação, que são as áreas mais demandadas e exigem os maiores investimentos. O terceiro foco é a infraestrutura pública, o que envolve a manutenção de prédios, escolas, postos de saúde, maquinários e malha viária. A cidade passa por um processo de requalificação de ruas, estradas e diversas estruturas. Na última década, Igrejinha demandou investimentos importantes para a recuperação desses espaços, e o município tem evoluído de forma consistente, com diversas entregas concluídas a partir desses três pilares.

A prefeitura passou a concentrar as secretarias em um único local, a partir de um projeto arquitetônico mais amplo. Como essa mudança de sede impactou a rotina local?

Antes de 2020, durante a gestão do então prefeito Joel Wilhelm, atual deputado, a equipe de administração tomou a decisão estratégica de transferir a sede da prefeitura da região central para um novo espaço. A escolha recaiu sobre uma área mais ampla e com capacidade de abrigar o crescimento futuro. Atualmente, o local apresenta um alto potencial de expansão, o que tem impulsionado o surgimento de empreendimentos privados no entorno. A mudança facilitou o dia a dia do contribuinte, que não precisa mais se deslocar por diferentes pontos da cidade para obter atendimento, uma vez que o novo prédio concentra a maior parte dos serviços públicos.

O município tem 35 mil habitantes e conta com apenas um semáforo. Como funciona a organização desse tráfego viário?

Há um único semáforo localizado em um cruzamento próximo ao campo do Esporte Clube Igrejinha. Naquele ponto específico, ainda não foi viável implementar uma solução para a retirada do equipamento. Contudo, a via urbana não exige outros semáforos, pois o trânsito da cidade, embora intenso, é muito organizado e flui em ritmo constante.

Como o caixa local enfrentou os impactos financeiros da enchente de maio de 2024 e qual é o cenário atual dessa recuperação?

Fisicamente, o território está recuperado, embora os reflexos financeiros ainda exijam atenção. Durante a enchente de maio de 2024, foi necessário utilizar todas as reservas do município e assumir um passivo para o futuro. Foram realizados investimentos diretos da ordem de 25 milhões de reais para limpeza, recuperação e manutenção das estruturas e prédios danificados, em um processo amplo de resposta imediata aos danos causados pela enchente. Entre os repasses da União e do governo do Estado, o município recebeu entre 12 e 13 milhões de reais. Como resultado, o Executivo precisou aportar mais de 10 milhões de reais em recursos próprios. Todo esse passivo já foi quitado, e o balanço das contas públicas permanece em dia. Houve um esforço orçamentário substancial nos 12 meses seguintes ao evento, dentro de um cenário de forte pressão sobre o caixa municipal, mas hoje a cidade está reestruturada e com as finanças controladas.

A regulação exige um percentual mínimo de investimento em áreas fundamentais, como a saúde. Como o Executivo lida com essa exigência frente às cobranças diretas da população?

A obrigação legal determina a aplicação de 15% do orçamento em saúde, mas Igrejinha historicamente destina índices que variam de 25% a 30%. É o planejamento se manifestando na prática: se a saúde é prioridade, é preciso executar ações que materializem esse compromisso, e não se sustenta o serviço público sem aporte financeiro. O município eleva essa fatia do orçamento por entender que é inviável que os cidadãos aguardem anos por atendimentos que, teoricamente, seriam de competência do Estado ou da União. Na divisão constitucional, as prefeituras respondem pela atenção básica, enquanto os demais entes federativos assumem a média e a alta complexidade. Na prática, as gestões municipais investem recursos na média complexidade justamente para evitar que um paciente espere dois ou três anos por uma consulta de cardiologia ou gastroenterologia. Para manter a proximidade com essas demandas, o gabinete da prefeitura fica aberto todas as quartas-feiras, do meio-dia às 18 horas, sem necessidade de agendamento prévio, oferecendo atendimento direto à população.

A Oktoberfest de Igrejinha atrai um público muito expressivo para a região. Como funciona a organização desse evento, estruturado a partir do engajamento voluntário?

A Oktoberfest é a maior festa regional do Vale do Paranhana. Trata-se de uma cidade de 35 mil habitantes organizando um evento para receber 230 mil pessoas, com um diferencial marcante: os três mil trabalhadores envolvidos atuam de forma voluntária. A gestão do evento é feita por uma associação, enquanto o poder público atua como apoiador no suporte de infraestrutura, já que a festa ocorre no Parque Municipal de Eventos Almiro Grings. O resultado financeiro, que gira em torno de 5 milhões de reais anuais, é integralmente revertido para a comunidade, beneficiando entidades das áreas de saúde, educação, assistência e cultura. Em termos de proporção, volume de visitantes e consumo de chope, o evento consolida-se entre as quatro maiores Oktoberfests do mundo, ao lado das edições de Munique, Blumenau e Santa Cruz.

Quais são os principais projetos em andamento voltados para a infraestrutura urbana e para o avanço dos serviços médicos nos próximos anos?

A principal obra na educação é a construção da Escola Jair Arthur Valau, na região central, com entrega prevista para o fim de 2026. Ao longo de seus 62 anos, a cidade nunca teve uma escola pública no Centro, e essa obra vai suprir a lacuna no atendimento ao ensino fundamental. Na saúde, o município já é referência regional no atendimento de pessoas com necessidades especiais. O Hospital Bom Pastor, uma instituição filantrópica que recebe apoio municipal, atende pacientes de quase 200 cidades gaúchas em procedimentos especializados, como cirurgias bucomaxilofaciais e tratamentos odontológicos com sedação. Em anos recentes, Igrejinha chegou a ser a cidade brasileira com o maior número de cirurgias bucomaxilofaciais realizadas.

Na mesma área, o município será a sede regional do Centro Especializado em Reabilitação (CER III), focado em reabilitação física, auditiva e intelectual — serviço atualmente inexistente no Vale do Paranhana. O prédio está em obras e a previsão é iniciar o atendimento no final de 2027, abrangendo pacientes de São Francisco de Paula a Cambará do Sul. Além disso, está em construção um complexo de saúde no bairro Bom Pastor, destinado a terapias alternativas e práticas integrativas, como shiatsu e acupuntura. Em paralelo, o programa de recuperação viária já pavimentou e recapeou mais de 40 quilômetros de vias urbanas e rurais, com a meta de superar os 50 quilômetros até o fim do mandato, em 2028.

Com a proximidade da Região das Hortênsias, como o município tem explorado o turismo de contemplação e o calendário próprio de feiras?

O Parque de Eventos Almiro Grings não se restringe à Oktoberfest. O espaço também sedia o Igrejinha Mix em junho, evento que comemora o aniversário da cidade; a Colecionarte em maio, uma das maiores feiras de colecionismo do Brasil; e o Festival da Cerveja, promovido pela Associação dos Cervejeiros Artesanais de Igrejinha. O investimento na rede de hospedagem também cresceu, especialmente na Serra Grande, que compõe a Rota das Nuvens, voltada ao turismo de contemplação. O local oferece vistas panorâmicas que, à noite, iluminam o Vale do Paranhana e o Rio dos Sinos. O setor de turismo gastronômico também se destaca com excelentes restaurantes.

Aproveitando a proximidade com o principal destino turístico do Rio Grande do Sul, a administração municipal asfaltou 12 quilômetros de um caminho alternativo até Gramado. Essa rota liga a região da Serra Grande a Gramado passando por Três Coroas. É uma via totalmente pavimentada, custeada com recursos próprios do município, ideal para os motoristas que desejam evitar o fluxo tradicional da ERS-115.

Na presidência da Ampara, como tem sido conduzido o trabalho de articulação e o rateio da rede médica entre as sete administrações vizinhas?

O Vale do Paranhana engloba os municípios de Igrejinha, Três Coroas, Taquara, Parobé, Rolante, Riozinho e a recém-integrada Caraá, que se uniu ao bloco por afinidade de características. O projeto regional mais relevante é a regionalização da saúde. No passado, predominava a chamada "ambulancioterapia", modelo em que as prefeituras apenas transportavam os pacientes para os grandes hospitais de Porto Alegre.

Com o tempo, o atendimento foi descentralizado por meio da criação de polos regionais. As atribuições foram divididas conforme a vocação de cada cidade. Igrejinha, por exemplo, concentra as demandas de cirurgia bucomaxilofacial, atendimento odontológico, oftalmologia e abriga o centro de referência do programa TEAcolhe. Parobé atua como referência em traumatologia e ortopedia, enquanto Taquara centraliza os tratamentos oncológicos. Esse modelo encurta os deslocamentos dos pacientes e otimiza a rede de saúde local. Além disso, garante maior robustez financeira às instituições, uma vez que a tabela de repasses do SUS muitas vezes não é suficiente para custear as operações hospitalares sem o aporte desses serviços regionalizados.

Em seu novo desafio à frente do Consórcio Pró-Sinos, quais são os projetos voltados para o saneamento e o gerenciamento de resíduos sólidos das cidades consorciadas?

A gestão do Consórcio teve início após a saída do ex-presidente Volmir Rodrigues, ex-prefeito de Sapucaia do Sul. O Pró-Sinos oferece vantagens logísticas e financeiras aos associados por meio de atas de registro para compras coletivas, permitindo a contratação de serviços e produtos em larga escala e com custos reduzidos. O principal projeto do momento envolve o saneamento básico na Bacia do Vale do Rio dos Sinos. A população costuma perceber o lixo apenas quando a coleta falha. No entanto, para as prefeituras, o gerenciamento engloba quatro fases complexas: recolhimento, processamento e triagem, transporte e destinação final em aterros sanitários. O objetivo é formar um amplo bloco consorciado para ganhar escala, aumentar as taxas de reaproveitamento de resíduos e enxugar custos operacionais. A iniciativa depende de estudos técnicos em andamento, mas a expectativa é unificar a cadeia de processamento para reduzir o impacto financeiro nas contas de cada município.

A infraestrutura de saneamento tornou-se um requisito vital para a expansão imobiliária. Como funciona a regulação de novos parcelamentos de solo e a aprovação de loteamentos?

Historicamente, era comum que a expansão urbana ocorresse antes da infraestrutura, obrigando o município a providenciar as obras posteriormente. Esse modelo não é mais aceito. O rigor com a legislação atual é alto: o crescimento imobiliário segue ativo, mas cabe aos investidores entregar a área com as redes pluvial, de água, de energia e de pavimentação concluídas. Nenhum parcelamento de solo é autorizado em Igrejinha sem o correspondente asfalto. Essa diretriz é fundamental para evitar o ciclo em que o poder público atua sempre de forma reativa, buscando recursos para ordenar áreas que já cresceram.

Quais são os principais pleitos da região junto ao Palácio Piratini em relação às rodovias estaduais e qual a postura local diante do desenho proposto para as praças de pedágio?

A região apresenta duas pautas prioritárias de mobilidade. A primeira foca na ERS-239, o principal acesso a partir de Novo Hamburgo. O alto fluxo da via gera elevados índices de insegurança e ocorrências frequentes de acidentes fatais. A expectativa é que o governo do Estado aporte recursos para melhorias estruturais que reduzam os riscos aos motoristas. A segunda prioridade é a duplicação da ERS-115, a principal artéria de conexão com a Região das Hortênsias via Igrejinha e Três Coroas. É uma rodovia de pista simples que absorve o tráfego de 250 a 300 mil veículos por mês, resultando em grandes congestionamentos em horários de pico.

Apesar da compreensão quanto à limitação orçamentária do Estado e à viabilidade do pedágio como ferramenta de concessão, os municípios mantêm uma postura crítica em relação à modelagem apresentada. A ampliação agressiva das tarifas e a expansão do número de praças de pedágio — que saltariam de cinco ou seis para mais de 20 — são pontos de discordância. Para o motorista que se desloca do Vale do Paranhana a Novo Hamburgo, o custo atual de aproximadamente seis reais chegaria perto de 30 reais. O objetivo é estabelecer um diálogo transparente com o governo gaúcho para revisar os impactos tarifários sem inviabilizar as obras estruturais necessárias.

Quais são os principais fatores de atração e crescimento que o município vivencia neste momento de expansão e comemorações?

A cidade de Igrejinha projeta-se tanto pela tradição da Oktoberfest quanto pela eficiência da rede municipal de saúde, que se consolidou como referência estadual em diversas especialidades. O complexo urbano está em franca expansão e a qualidade de vida local tem atraído um volume expressivo de novas famílias. Economicamente, o município sustenta oportunidades de trabalho por meio de um forte polo industrial nos setores calçadista, moveleiro e têxtil. O parque fabril da cidade inclui uma das maiores indústrias de moda íntima da região Sul e uma construtora que está entre as maiores do Brasil em área construída. O turismo também registra crescimento contínuo. É um momento oportuno para que visitantes conheçam a cidade durante as celebrações de aniversário e participem da Oktoberfest, que ocorrerá no segundo e no terceiro finais de semana de outubro de 2026. A cidade cresce de maneira sólida e está preparada para receber seus visitantes.