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11/07/2021

Sonhos  de matéria

Dia desses, antes de dormir, conversava comigo mesmo sobre o valor do dinheiro e o seu respectivo retorno em realização e felicidade.

O tempo passa, a gente trabalha e adquire alguns dos nossos sonhos. Logo adiante, descobre que não eram sonhos. Que sonhos não são de matéria – por isso, são sonhos.

A matéria ocupa um lugar no espaço: palpável, tem tamanho, custo, valor agregado. Mas o seu significado é perecível e, na maioria das vezes, até dispensável. Quando há o básico, talvez o restante seja apenas excesso.

Você vive em uma mansão de novela, mas você também vive em uma casa simples. Um pedacinho de nada, que guarda algumas das suas mais bonitas lembranças. Com o seu cheiro.

Você anda em um carro importado, mas também anda de carona. E de ambos os jeitos você chega lá. Depende, na verdade, para onde está indo.

Você come em um restaurante na encosta do mar da Itália, mas também come churrasco em casa, no fim de semana, com maionese e arroz branco. O simples perfeito.

Você usa um vestido caro, de marca, invejado, mas você também come pipoca com uma calça de moletom velha, rasgadinha, com elástico esgaçado, mas cheia de apreço afetivo.

Você viaja para longe, bem longe. Atravessa continentes, sobrevoa o mundo todo na busca do raro. Mas você também come bergamota debaixo da mesma árvore há uma vida inteira. Descobre que raros mesmo são os momentos e não os lugares. E que os prazeres não escolhem moeda, mas pessoas.

É talvez, por isso, que há tantos infelizes mergulhados no excesso. E tantos realizados e felizes aderentes ao simples.

O que mexe com a realização humana, definitivamente, não é a matéria. É o subjetivo, reparem. É a memória, o amor, a saudade. O presente não é o embrulho, mas a dimensão do significado.

Quando eu completei 14 anos, fiz uma festa para receber meus amigos e mostrar a eles o mais incrível presente que alguém poderia receber pelo seu aniversário: uma piscininha de plástico, de 500 litros.

Hoje, percebo que a minha piscina era pequenininha, mas naquele momento da vida era a mais gigante que uma criança nas minhas condições poderia ter. A dimensão do meu presente – que me fez parar de tomar banho em um tanque de lavar a roupa – fez com que eu ficasse imensamente feliz.

Não pela matéria. Mas pelo seu significado, imortalizado na minha saudade.

Fiquei feliz pelo gesto da minha mãe, por ter ajudado no cortar da grama para receber o presente, pela montagem da piscininha em família, por aguardar sentadinho na escada ela encher com a água devagar, que escorria da mangueira.

Jamais esquecerei dela. Das minhas dores de garganta vindas da piscininha. Do gesto amoroso e rico da minha mãe. Da minha alegria de criança.

A matéria tangibiliza muitas das nossas vontades, mas jamais limitemos nossos sonhos em matéria.

Sonhos são de amor. E neles estão nós mesmos.

 
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